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Por um trabalho mais seguro

 

Entenda a importância da segurança do trabalho e o que está sendo feito na USP para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores

O ambiente profissional pode fornecer riscos para a vida do trabalhador, em vários níveis. Existe desde a possibilidade de violência física até os transtornos psicológicos que podem ser derivados da atividade exercida. Para tentar minimizar esses riscos e promover uma maior qualidade de vida, existe a segurança do trabalho.

Composta por técnicos, engenheiros, pesquisadores e profissionais da saúde que possuem como lema a defesa da vida e a criação de proteções para a atividade laboral, essa é uma área que avança dia após dia, lentamente colecionando êxitos. Os cursos de capacitação profissional e prevenção de acidentes, a implantação de normas de segurança e a penalização pelo seu descumprimento, as campanhas de conscientização, uma legislação mais completa, tudo isso foi conquistado devido ao esforço daqueles que lutam por melhores condições de trabalho.

As atividades em laboratórios devem ser realizadas com cuidado para evitar acidentes

“A segurança do trabalho tem uma tradição que é eliminar acidentes. Se não der para eliminar, reduzir ou isolar o risco”, conta a professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gestão de Qualidade de Vida no Trabalho (NEP-GQVT), Ana Cristina Limongi. O núcleo iniciou suas atividades em 1998 e até hoje atua na pós-graduação, além de fazer reuniões bimestrais abertas à comunidade, para discutir a gestão da qualidade de vida de maneira prática e participar de fóruns internacionais sobre a questão, alçando a outros níveis a pesquisa feita pela Universidade.

Fatores de risco

Dentro da Universidade existem muitas áreas de risco para acidentes do trabalho, como os laboratórios e cozinhas. Até mesmo os professores, que aparentemente estão afastados dos locais de risco, sofrem com problemas decorrentes do exercício da profissão, como falhas vocais e estresse. “O nível de afastamento é muito grande”, afirma Ana Cristina. Para a professora, o ideal seria que a Universidade possuísse um programa de segurança unificado, com um banco de dados, uma vez que as atuais iniciativas são descentralizadas. “Há muitas iniciativas de ponta, mas fragmentadas, a gente não tem nada integrado”, revela.

Ainda segundo a pesquisadora, é muito importante que a Universidade fortaleça seu Sesmt (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho), o serviço responsável pelo gerenciamento e análise dos riscos, prevenção de acidentes de trabalho e orientação individual sobre a utilização de equipamentos de segurança. A quantidade e variedade de profissionais variam conforme a função e tamanho da empresa, mas no serviço estão envolvidos médicos, odontólogos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem do trabalho, além de engenheiros e técnicos em segurança.

O serviço de segurança do trabalho também pode ajudar o trabalhador a enfrentar problemas pessoais que atinjam seu desempenho profissional, como o vício em tabaco, álcool, drogas e distúrbios nutricionais, pois possui a função de encaminhar aqueles que precisam de apoio aos órgãos responsáveis pela reabilitação.

Segundo aponta o relatório de atividades feito pelo Departamento de Saúde Ocupacional do Sesmt (DSO-Sesmt), referente ao período entre janeiro de 2010 e abril de 2013, o número de requerimentos de aposentadoria na USP caiu quase 30% nos últimos três anos. Em 2010 foram 288 pedidos, enquanto em 2012 esse número foi de 204 requerimentos. A queda no número de aposentadorias significa que os trabalhadores estão ocupando seus cargos por mais tempo, o que só pode acontecer em um ambiente de trabalho que conceda qualidade de vida.

Outro ponto importante quando se fala em segurança do trabalho é a terceirização de funcionários. A contratação de outras empresas para realizar uma função pode esconder vínculos profissionais frágeis e a diminuição dos direitos do empregado. “A terceirização em geral está associada a contrato de trabalho em que você ganha menos, tem menos benefício e menos qualificação”, aponta Ana Cristina. Para evitar que essa relação exploratória aconteça, são realizadas vistorias nas empresas terceirizadas. Como aponta o relatório do DSO-Sesmt, o número de vistorias quase dobrou de 2011 para 2012, subindo de 608 para 1.101.

 

União de forças

Outras iniciativas envolvendo o estudo da segurança no trabalho estão sendo feitas na USP. Uma das mais recentes é o Convênio de Cooperação Técnica selado entre a Faculdade de Saúde Pública (FSP) e o Ministério Público Federal do Trabalho (MPT), no dia 24 de abril. Na prática significa que está estabelecida uma maior interação entre o mundo acadêmico da Universidade e o setor público, responsável pela resolução e investigação de acidentes do trabalho. O professor da FSP e coordenador do Fórum Acidentes do Trabalho, Rodolfo Vilela, já havia feito pesquisas em parceria com o MPT antes, sobre os trabalhadores no setor canavieiro. “Esse projeto foi uma demanda do Ministério Público, porque eles não estavam entendendo o que estava acontecendo. A pesquisa serviu para trazer argumentos para o setor público na sua atuação de controlar os riscos do setor”, conta o professor. “A ideia do convênio veio de certa forma para consolidar isso que a gente já estava fazendo, mas em um plano formal”, completa.

Os pesquisadores da Universidade agora terão maior acesso aos locais onde ocorreram acidentes, além de dados sobre a investigação feita pelo Ministério Público. Isso é importante por trazer novos pontos de vista sobre a mesma situação, como comenta Vilela: “Normalmente os procuradores são da área do direito, e aqui a gente tem um espaço multidisciplinar; eu sou engenheiro, tem médicos do trabalho, sociólogos, psicólogos. São várias áreas que tentam botar um olhar sobre o acidente e suas determinações e as possibilidades de prevenção”. Desenvolver uma pesquisa em campo é diferente de ficar fechado em um laboratório, cercado apenas por hipóteses. Com o convênio, tanto a pesquisa é beneficiada, por se apropriar da prática, quanto o Ministério Público, que ganha novos aliados na busca por soluções dos acidentes e meios de evitar que outros venham a acontecer. “É uma aliança entre o poder da força e o poder do argumento”, afirma o professor.

A parceria também se reflete no aumento do número de pessoas que entram em contato com o tema da segurança do trabalho, por meio do Fórum Acidentes do Trabalho. São realizados seis encontros ao ano, em São Paulo e Piracicaba. O convênio possibilitou o financiamento desses encontros, sua continuidade e modernização. Atualmente, os fóruns são transmitidos pelo IPTV e atingem milhares de interessados, ampliando a discussão sobre o assunto. “Hoje, a gente pode dizer que essa é uma iniciativa de educação permanente. Há uma perspectiva de envolvimento do participante com o compromisso da formação continuada. A ideia é criar um gosto nesse participante pela ideia de procurar mais informações”, conta o professor da Faculdade de Medicina da Unesp Botucatu e também coordenador do fórum, Ildeberto Almeida. Ao criar novo interesse sobre os acidentes de trabalho, o fórum incentiva a pesquisa acadêmica, formando um círculo de criação e difusão do que é pesquisado.

Fonte:  Revista Espaço Aberto 151 – USP
Data 05/08/2013

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