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Trabalhadores cada vez mais estressados

 

Pode começar com uma constante sensação de exaustão, um cansaço não reparado mesmo após uma longa temporada de férias. A cabeça começa a latejar, o coração acelera além do normal, o corpo sua, vem as tonturas e qualquer coisa, por menor que seja, irrita. Desencadeado por situações diversas, o estresse tem chamado cada vez mais a atenção de especialistas por sua relação com algumas formas de trabalho e profissões.

Segundo o International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR) – associação americana com sede no Brasil que se dedica à prevenção e ao tratamento do estresse – 70% da população economicamente ativa do país hoje é afetada pelo problema. Desses, 30% sofrem com o nível mais elevado da doença. “As pessoas estão adoecendo cada vez mais por causa do estresse relacionado ao trabalho”, afirma a presidente da Isma-BR e doutora em psicologia clínica especializada no tratamento do estresse, Ana Maria Rossi. “O próprio INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) já declarou que a porcentagem de doenças relacionadas ao estresse aumentou em 28%”.

Em um ranking formado pelo Isma-BR, o cargo de profissional de telemarketing aparece entre as profissões mais estressantes no Brasil, em terceiro lugar. Dentre os desencadeadores, estão desde dificuldades de conciliação da profissão com as demandas normais de qualquer ser humano até a pressão que a profissão causa.

Assim que chega ao local de trabalho e faz o “login” no computador que usa habitualmente, não passam mais do que três segundos para o telefone da analista de telemarketing, Larissa Sena, comece a chamar. Desde a primeira chamada, no início do expediente, por volta de 14h, o fluxo intenso de ligações só é diminuído quando o relógio já alcança as 16h. “É constante!”, destaca.

TELEMARKETING

Em um setor que é responsável por receber as demandas de clientes que chegam de todo o Brasil e, até mesmo, de outros países, a analista reconhece que, muitas vezes, o maior estresse não é causado pela atividade exigida pela profissão e, sim, pelo comportamento de alguns clientes. “Eu tenho o primeiro papel de acalmar o cliente para passá-lo para outro atendente depois. Muitas vezes, o problema que eles querem resolver ultrapassa a nossa atuação e nós é que temos que ouvir a reclamação”, explica. “Eu trabalho há dois anos e oito meses com isso e, hoje, já sei lidar, mas, no início, já fui ofendida e fiquei muito estressada, chateada…”.

Segundo Ana Maria, presidente do Isma-BR, uma pesquisa realizada em 2011 pela associação a partir de entrevistas com mil trabalhadores na faixa etária de 25 a 60 anos identificou que são cinco as principais fontes de estresse relacionadas ao trabalho. Dentre os entrevistados, 62% apresentaram como fonte maior de seu estresse, a falta de tempo. “Muitas vezes isso era causado por uma sobrecarga ou excesso de tarefas”, afirma, ao identificar que essa foi a principal causa apresentada na pesquisa. “Isso é muito previsível para o mercado de trabalho que temos hoje. Notamos que as empresas estão enxugando seu quadro de funcionários e redistribuindo a mesma quantidade de demanda entre os que ficaram”.

Assim que chega ao trabalho, antes mesmo de iniciar o expediente, o bancário Whenio Calandrini já é apresentado ao que lhe espera. Antes da abertura do atendimento aos clientes, a fila de pessoas na porta da agência já anuncia a demanda de trabalho daquele dia. “O que vem logo à cabeça é que o dia vai ser complicado”, diz. “A demanda do público é tão grande, e o quadro funcional reduzido, que o atendimento começa às 10h e às 17h ainda tem cliente em atendimento”.

BANCÁRIO

Atuante na profissão tida como uma das mais estressantes do país (aparece em terceiro lugar no ranking da Isma – BR), Whenio atribui a principal causa do estresse no trabalho, justamente, ao excesso de demandas e o pouco tempo para resolvê-las.

Por causa do estresse causado pelo dia a dia agitado, quando chega a atender de 150 a 300 pessoas diariamente, ele reconhece que já teve que parar no médico. Ao passar mal, esperava a constatação de algum problema médico mais específico. No final, a explicação era, justamente, a irritação e exigência excessiva do dia a dia. “É um ciclo vicioso, a pessoa entra nessa rotina sem saber e, quando vai parar no médico, percebe que os problemas são causados pelo estresse do dia a dia mesmo”, afirma. “A realidade da própria profissão, hoje, impõe isso. Além da demanda crescente e da diminuição da estrutura de recursos humanos, há as metas que se precisa cumprir e ainda o risco de assalto que se corre trabalhando em agência”.

Além dos aspectos levantados pelo bancário, a pesquisa da Isma-BR também aponta o medo da demissão como outra das maiores fontes de estresse no Brasil, com 56%. Em terceiro lugar, a falta de controle atingiu 41% dos entrevistados. “A falta de controle está relacionada a maior responsabilidade do profissional e a pouca autonomia que ele tem para tomar decisões relacionadas à essa responsabilidade que tem”, informa Ana Maria Rossi.

A realidade revelada pelo estudo no Brasil também aponta indicativos no Pará. Apesar de não possuir uma pesquisa específica sobre o assunto, a Superintendência Regional do Trabalho Emprego e Renda do Pará (SRTE-PA) observa o crescimentos de demandas médicas ocasionadas pelo estresse no local de trabalho a partir dos atendimentos que realiza.

RELAÇÃO

Segundo a auditora fiscal do trabalho e coordenadora do setor de saúde e segurança no trabalho do SRTE, Edna Rocha, é percebida, inclusive, a relação do estresse com alguns acidentes de trabalho. “Temos muitas reclamações nesse sentido. De modo geral, vemos que o estresse tem relação com algum acidente de trabalho, com a exposição a uma carga excessiva e até com perseguições no local de trabalho”, aponta. “Se estou em uma jornada de trabalho excessiva, por exemplo, o raciocínio fica alterado e, dependendo do trabalho que desenvolvo, posso causar ou sofrer um acidente”.

De qualquer modo, para ela, o estresse está relacionado com as características específicas de cada profissão. “Cada ambiente tem um fator que causa estresse. Pode ser a pressão do ambiente, a carga de trabalho e a carga horária…”, acredita. “Quando a pessoa está exposta a situações de estresse, o organismo está sendo exigido mais do que ele pode dar”.

Fonte: Diário do Pará
Data 06/08/2012

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